O furacão no centro do furacão
O dia de hoje (16/12) prometia: em Malmö, na Suécia, onde estamos hospedados, os trens estavam meia hora atrasados – um recorde para os padrões escandinavos de pontualidade. Ao chegar na Dinamarca, as barreiras policiais a partir de uma estação ANTES do Bella Center, onde acontece a CoP15 não deixavam dúvidas: o antepenúltimo dia da convenção seria tenso. Só não imaginávamos quanto!
Apenas pessoas com crachá passavam pelas barreiras erguidas quase 2 kms antes do Bella Center. Mesmo sob a neve, a fila de pessoas com crachás de organizações não governamentais evidenciava o quanto a polícia estava dificultando seu acesso à convenção. Mas foi só depois de entrar aqui que soubemos: a partir de determinado ponto, todos os portadores de crachás de ONGs foram impedidos de entrar. Ainda bem que a Juliana Russar, do projeto Adopt a Negotiator, chegou aqui às 7h30 da manhã!
A radicalização da polícia desencadeou a revolta de quem pagou uma passagem aérea cara e está tendo que enfrentar o alto custo de vida da Escandinávia para participar de um evento esperado há dois anos, desde que os delegados das nações associadas à ONU decidiram, na CoP13, que este seria o palco do novo acordo climático global. O resultado foram cenas de protesto e repressão policial que encheram os noticiários de TV. Daqui de dentro, ouviam-se os gritos de guerra das ONGs.
Do lado de dentro, a situação era igualmente confusa. Não pela renúncia da presidente da COP15, ocorrida na sessão da manhã. Isso é um procedimento de praxe: ao iniciar as chamadas sessões de alto nível, com ministros e presidentes, a CoP muitas vezes ganha um presidente de cargo hierárquico mais alto. Porém sempre do país anfitrião. Como existe uma disputa política interna aqui na Dinamarca entre a Ministra do Meio Ambiente, que ocupava a presidência da CoP até esta manhã, e o Primeiro Ministro do país, há quem veja neste movimento um indício de fortalecimento político deste último. De nossa parte, entendemos que ter dois políticos de alto nível no comando da COP (pois a Ministra do Meio Ambiente saiu da presidência para liderar as negociações paralelas que estão acontecendo) apenas fortalece o comando da Dinamarca sobre as negociações. Se isso for verdade, há mais motivos para nos preocuparmos com o desfecho da convenção do que nossa vã filosofia pode imaginar: desde a semana passada que pesa sobre esse país a suspeita de que sua esperada postura de neutralidade tivesse sido abandonada. E hoje de manhã, ao anunciar que os trabalhos prosseguiriam em cima de novos documentos, o Primeiro Ministro dinamarquês apenas confirmou a tentativa de resolver a CoP15 no tapetão – gerando uma forte reação do G77 que, superando todas as divergências da semana passada, uniram-se na condenação ao golpe, que certamente conta com o apoio dos países industrializados (o que explica o discurso de apoio à Dinamarca feito pela Austrália em nome do grupo-guarda chuva, designação do bloco de nações industrializadas fora da comunidade européia).
Algumas fontes acreditam que o movimento desta manhã seja uma cortina de fumaça para dar tempo para que os países analisem, em separado, as alterações feitas pelos delegados ao longo da noite nos documentos que estavam na pauta. Em alguns itens, já se sabe que houve avanços: REDD, por exemplo, que havia sido penalizado com alterações feitas pelos Estados Unidos (apoiados pela Colômbia) em prol de mecanismos de mercado, reassumiu formas mais equilibradas. Mas não podemos negar que, dependendo da dose, o remédio pode matar o doente. Resta esperar para ver se o nível de enfrentamento desta manhã sacudirá a CoP trazendo uma nova solução ou o total fracasso.
No final das contas, tudo está empacado por causa de dinheiro: os Estados Unidos se recusam a colocar a mão no bolso e a União Européia não quer, mais uma vez, arcar sozinha com o ônus. As nações desenvolvidas ainda estão se recuperando da crise econômica e várias delas têm programas de redução das contas públicas. Calendários eleitorais locais também dificultam a adesão com programas de longo prazo e com despesas adicionais.
As chances de naufrágio são grandes. Perguntado se os presidentes teriam condições de superar os atuais impasses, um alto funcionário da delegação brasileira com quem o Vitae Civilis falou lembrou que presidentes têm poder, mas não têm tempo para ficar vendo vírgulas em documentos. Ou seja: a CoP15 pode terminar: 1) com um acordo político vago, sem grandes detalhes sobre metas e mecanismos de financiamento e transferência de tecnologia; 2) com um acordo político em linguagem para se transformar em documento jurídico, porém com metas de curto prazo apoiadas pelo financiamento de curto prazo que foi colocado na mesa (ninguém fala de longo prazo); 3) com uma declaração de boas intenções no longo prazo sem qualquer vínculo com a parte financeira.
Dizem que não há vento no olho do furacão. Não aqui na CoP15: no centro nervoso das decisões sobre clima, há um furacão dentro de outro furacão.
Artigo produzido por Silvia Dias, da Aviv Comunicação, para o blog www.vitaecivilis.com e reproduzido pelo site Mercado Ético (www.mercadoetico.com.br)
Foto de Tomaz Cavalieri
Tags: CoP15, sustentabilidade
Categoria: Notícias